Carta da Direção:
Escrevemos esta carta nos primeiros dias da campanha eleitoral brasileira de 2026. O ambiente segue bastante polarizado, e o resultado, inteiramente em aberto. Ao mesmo tempo, a Petrobras acaba de anunciar a presença de hidrocarbonetos na Margem Equatorial. Volume, qualidade e viabilidade econômica ainda precisam ser confirmados, mas o dilema já está colocado: a exploração pode gerar benefícios econômicos importantes e, ao mesmo tempo, pôr em xeque a liderança do Brasil na agenda climática mundial, num momento em que os eventos extremos já destroem territórios e ceifam vidas no país e no mundo.
É verdade que países desenvolvidos continuam produzindo petróleo e que o Brasil, muito mais vulnerável, precisa financiar seu desenvolvimento. O governo argumenta que os recursos da Margem Equatorial poderão contribuir para uma transição energética justa e que o cenário geopolítico demanda explorá-los para preservar a soberania energética. Isso, porém, exige o que o país ainda não aprendeu plenamente: transformar a riqueza do petróleo em diversificação econômica, proteção social, adaptação, ciência e infraestrutura de baixo carbono.
Se a exploração avançar, será preciso definir o destino desses recursos, as salvaguardas e — sobretudo — um cronograma claro de phase out da produção de petróleo e gás, alinhado à Transição para Longe dos Combustíveis Fósseis, tema que marcou o desfecho da COP30, em Belém, com o Mapa do Caminho assumido pela presidência brasileira, e voltou à pauta em Santa Marta, na Colômbia, em abril de 2026. Até aqui, no entanto, o Brasil patrocina essa agenda no plano internacional sem traduzi-la em política doméstica.
A incoerência se repete na Petrobras. A Diretoria de Transição Energética e alguns investimentos em P&D ligados ao clima são passos na direção certa, mas insuficientes para o desafio que temos: a companhia precisa se tornar, de fato, uma empresa de energia alinhada ao novo cenário climático. Essa transformação, contudo, ainda não chegou aos investimentos, às operações e ao orçamento, que seguem tímidos — aparece, por ora, apenas na propaganda, intensa na COP30, que apresenta a empresa como protagonista da transição enquanto seu plano de negócios segue extremamente concentrado na expansão fóssil. Cabe às suas lideranças alinhar falas públicas, capital e estratégia a um rumo inequívoco — produção fóssil com data para declinar e investimentos crescentes em energia de baixo carbono —, renovando uma empresa tão importante para os brasileiros.
O contexto internacional torna essa discussão ainda mais urgente. Nos Estados Unidos, às vésperas das eleições de meio de mandato, a palavra “clima” tornou-se quase proibida em diversas esferas. Buscam-se sinônimos para evitar o termo e, assim, não interromper inteiramente o que vinha sendo construído. A saída norte-americana do Acordo de Paris enfraqueceu o multilateralismo justamente quando mais precisamos de coordenação.
As guerras na Ucrânia e no Oriente Médio, inclusive o conflito entre Irã e Estados Unidos, recolocaram a segurança energética no centro das decisões e estimularam respostas emergenciais pouco sustentáveis. Enquanto isso, um El Niño muito forte amplia o risco de secas, enchentes, ondas de calor e incêndios. Adaptação e resiliência tornaram-se praticamente consensuais, porque os impactos já chegaram aos territórios. A mitigação, por outro lado, vive talvez seu momento de maior incerteza e entropia, com questionamentos sobre custos, ritmo e até sobre a validade do esforço coletivo.
Foi nesse contexto que a COP30 marcou os dez anos do Acordo de Paris. O mundo veio a Belém para fazer um balanço, e a presidência propôs iniciar uma etapa mais voltada à implementação. O legado, porém, foi ambíguo: muitas NDCs chegaram tarde e, como mencionado, o roteiro para o abandono dos fósseis ficou fora dos textos negociados.
Para o CBC, 2025 também foi um ano simbólico: completamos dez anos de atuação. Nascemos em 2015, no mesmo ano do Acordo de Paris, e chegamos a Belém depois de meses de articulação com o Consórcio Brasil Verde, a Presidência da COP30 e governos estaduais de todo o país.
Realizamos três Pré-COPs por biomas, palestramos em mais de 15 eventos durante a conferência e apoiamos agendas bilaterais com a vice-presidente executiva da Comissão Europeia, o Banco Europeu de Investimento e a US Climate Alliance. Por meio do Climate Reality Brasil, estivemos em mais de 20 outros. Foi um ano cansativo e intenso para todas as instituições brasileiras que trabalham com clima — para nós, também de construção e entrega.
O 1º Anuário Estadual de Mudanças Climáticas, lançado em janeiro de 2025, deu forma concreta a uma aposta central do CBC: organizar informações dispersas e transformá-las em inteligência pública. Pela primeira vez, dados de meio ambiente, emissões, adaptação, mitigação, orçamento e capacidade institucional das 27 unidades federativas foram reunidos em uma mesma plataforma de análise. A repercussão nacional confirmou a demanda por informação comparável, acessível e confiável sobre a ação climática dos estados.
O Anuário integra um movimento mais amplo de consolidação do Observatório Estadual de Mudanças Climáticas. Queremos que governos, órgãos de controle, universidades, organizações da sociedade civil, imprensa, pesquisadores e cidadãos possam acompanhar avanços, reconhecer boas práticas, identificar lacunas e cobrar resultados. Em 2025, aprofundamos a cooperação com o Tribunal de Contas da União, inclusive na integração de informações com o Painel ClimaBrasil, e ampliamos o diálogo com os Tribunais de Contas estaduais e o Instituto Rui Barbosa. Transparência não é apenas divulgar dados: é torná-los compreensíveis e úteis para melhorar decisões e acelerar a implementação.
Outro marco foi a conclusão dos 14 produtos do Plano de Transição Energética Justa das regiões carboníferas do Rio Grande do Sul, desenvolvido pelo consórcio WayCarbon–CBC e lançado oficialmente em 2026, quando o relatório final foi entregue ao governador Eduardo Leite, no Palácio Piratini, em Porto Alegre.
O projeto enfrentou desafios e resistências. No microcosmo das discussões sobre o carvão gaúcho, encontramos uma versão muito concreta de uma disputa global: como conciliar urgência ambiental, empregos, arrecadação, cultura, interesses econômicos, lobbies e proteção social.
Candiota é talvez o exemplo mais completo dessas contradições. São quase 150 anos de história ligada ao carvão, e cerca de 60% da massa salarial do município está associada aos empregos diretos nas minas ou nas termelétricas. Há uma população vulnerável que depende fortemente dessa atividade, além de empresas, serviços públicos e uma identidade regional construídos ao redor da cadeia carbonífera. A preocupação tem evidente legitimidade social.
Uma interrupção abrupta, sem alternativas reais, seria socialmente irresponsável e, em nossa visão, antiética. Por outro lado, a configuração atual é intensiva em carbono, ineficiente, cara e fortemente subsidiada pela sociedade. Tampouco há garantia de que, ao fim dos contratos vigentes, não surja nova pressão pela sua continuidade.
Transição justa não pode ser eufemismo para adiar decisões nem justificativa para abandonar trabalhadores e comunidades. Ela exige planejamento, diálogo, investimentos e alternativas econômicas que cheguem antes do encerramento das atividades. Essa discussão permanecerá em pauta por muitos anos e ainda precisa amadurecer. O CBC continuará trabalhando com diferentes estados, respeitando suas especificidades econômicas, sociais e culturais.
A rede do Climate Reality Brasil chegou a 4.715 lideranças, com 809 novos líderes formados em 2025. Na COP30, o Manifesto por Direitos Climáticos reuniu mais de 100 organizações signatárias e deu novo alcance às Cartas de Direitos Climáticos construídas com comunidades de diferentes regiões do país.
Também apoiamos o Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima, com financiamento do ICAT, na elaboração da Estratégia Transversal de Transição Justa e Justiça Climática do Plano Clima. O trabalho identificou aproximadamente 650 impactos associados às medidas de mitigação e contribuiu para estruturar seu monitoramento. A conclusão do plano pelo governo federal é um avanço; o desafio agora é transformar suas diretrizes em ação concreta nos territórios.
Em Minas Gerais, concluímos o projeto do UK PACT voltado à implementação do Plano de Ação Climática estadual. Foram desenvolvidos instrumentos de financiamento e uma ferramenta de Monitoramento, Relato e Verificação para que gestores e sociedade acompanhem as metas de forma contínua e, à medida que os dados forem atualizados, em tempo real.
Vencemos ainda um novo edital do UK PACT, agora em parceria com o MMA, para trabalhar com federalismo climático e com a contribuição dos estados para a NDC brasileira. O projeto permitirá discutir responsabilidades e capacidades, disseminar melhores práticas e realizar uma primeira análise e modelagem para identificar caminhos que minimizem o custo de cumprimento da meta nacional por meio da ação conjunta dos estados.
A transparência dos dados, a comparação de experiências e a construção compartilhada da governança climática federativa serão decisivas nesse processo. Essa iniciativa pode se tornar uma referência para a ação climática subnacional e um dos legados mais importantes do Plano Clima.
O Consórcio Brasil Verde inicia um novo ciclo sob a liderança do governador de Mato Grosso do Sul, Eduardo Riedel, que sucede Renato Casagrande. Há muito trabalho pela frente. O consórcio nasceu da expectativa de captar recursos internacionais de forma conjunta, mas essa vocação não se concretizou: na prática, os estados têm acessado as fontes de financiamento individualmente, e o instrumento coletivo perdeu boa parte de sua razão de ser. O novo ciclo é a oportunidade de reencontrá-la — identificando o que faz mais sentido fazer em conjunto do que isoladamente, como compras coletivas, serviços compartilhados e projetos estruturados em escala. O CBC seguirá oferecendo apoio técnico e capacidade de articulação a esse esforço.
O momento exige que avancemos. Mais de dois mil municípios brasileiros estão expostos a riscos geo-hidrológicos, e neles vive cerca de três quartos da população do país. A distância entre o que se assume nas conferências internacionais e o que estados e municípios conseguem implementar ainda é grande. É exatamente nessa distância, entre compromisso e execução, que o CBC trabalha.
Seguimos otimistas — não porque os desafios sejam pequenos, mas porque há conhecimento, experiências e pessoas capazes de enfrentá-los. O CBC procura ser, a cada dia, um pouco melhor do que foi no dia anterior: aprender, antecipar novas agendas e liderar os debates para os quais acreditamos poder contribuir.
Depois de dez anos, sabemos que a mudança não acontece de uma vez. Ela se constrói com ciência, diálogo, transparência, persistência e coragem para enfrentar as contradições do mundo real.
É com esse espírito que entramos em nossa segunda década.
Boa leitura.
Guilherme Syrkis, Diretor Executivo
William Wills, Diretor Técnico


