Em ano eleitoral, o Centro Brasil no Clima (CBC) mapeou os desafios e oportunidades que os próximos governadores vão herdar em matéria de clima. O Diagnóstico Climático Regional Brasil 2027–2030 reúne dados de emissões, governança e vulnerabilidades das cinco regiões do país e chega junto com cartas de recomendações e fichas técnicas enviadas pelo CBC a todos os candidatos ao governo dos 26 estados e do Distrito Federal. O material é baseado no Anuário Estadual de Mudanças Climáticas 2026, produzido com apoio do Instituto Clima e Sociedade (iCS) e do Instituto Itaúsa.
O ponto de partida é a escala do problema. Em 2024, os desastres climáticos geraram R$ 38 bilhões em prejuízos no Brasil. O Sul foi a região mais afetada, com 1.081 ocorrências, 190 mortes e R$ 16,4 bilhões em perdas, sendo que 61% de todos os óbitos por desastres no país naquele ano estiveram no Rio Grande do Sul. No Norte, incêndios e secas responderam por 76% dos 971 desastres registrados. No Nordeste, as estiagens concentraram 60% das ocorrências. O Sudeste, com as maiores emissões líquidas do país, 396 MtCO₂e em 2024 e única região onde esse indicador cresceu entre 2023 e 2024, registrou 1.054 desastres e cerca de R$ 7 bilhões em prejuízos.
Mas o diagnóstico não é só de riscos. O documento mostra que o Brasil não parte do zero na agenda climática. O Ceará lidera o ranking nacional de gestão hídrica depois de décadas de investimento contínuo. O Amazonas e o Amapá foram os únicos estados com emissões líquidas negativas em 2024, graças à floresta em pé. O Paraná tem um dos planos de ação climática mais avançados do país. O Piauí opera um fundo climático com execução efetiva. O Nordeste responde por 94% da geração eólica nacional. Cada um desses resultados atravessou vários governos, o que mostra que políticas climáticas não se constroem em um mandato.
O documento também evidencia assimetrias profundas na governança climática subnacional. Apenas quatro estados, Minas Gerais, Paraná, Pernambuco e Piauí, possuem planos de ação climática que integram mitigação e adaptação. Só oito estados têm fundos climáticos estruturados. A dependência de combustíveis fósseis no transporte chega a 83% no Norte, a 80% no Nordeste e a 79% no Sul. E mais de 102 milhões de hectares ocupados por povos indígenas, quilombolas e comunidades extrativistas na Amazônia ainda não têm cadastro ambiental rural, o que dificulta o acesso a instrumentos de financiamento e proteção.
Para o CBC, o que está em jogo no próximo ciclo não é criar uma agenda climática do zero, mas dar continuidade e profundidade ao que já foi construído. Interromper políticas públicas climáticas em curso tem custo econômico, social e ambiental mensurável. Os próximos governos herdam também um arcabouço federal novo, com o Plano Clima lançado em dezembro de 2025, a nova NDC apresentada à UNFCCC e o IBS Verde da reforma tributária, que projeta R$ 10,4 bilhões anuais a municípios que conservam ativos ambientais a partir de 2027.
O CBC acompanhará essa trajetória por meio do Observatório Estadual de Mudanças Climáticas, a ser lançado no último trimestre de 2026. Os dados deste diagnóstico serão a linha de base desse monitoramento.


