Centro Brasil no Clima debate caminhos com gestores estaduais, secretários, pesquisadores e especialistas em finanças climáticas
O Cerrado tem 200 milhões de hectares, metade já desmatada. Dos 50 milhões de hectares de pastagens que restam, mais de 60% estão degradados, 35 milhões de hectares, área equivalente à Alemanha. O custo da inação estimado no Brasil é de R$ 50 bilhões por ano em perda de solo fértil, assoreamento de rios, danos a estradas e pontes e custo maior de tratamento de água nos municípios, entre outros. Com a mudança do clima, o cenário tende a piorar, com projeções de aumento de 4 a 6 graus Celsius no bioma. “A pastagem degradada não é somente vítima do clima”, alertou Felipe Pinheiro, consultor do Centro Brasil no Clima e autor do guia que embasou o evento. “Ela amplifica o problema, pois o solo absorve mais calor, aumenta a temperatura local e causa estresse em animais e ecossistemas, além de reter menos carbono.”
Mas o tamanho do passivo esconde uma oportunidade. O CBC reuniu nesta quinta-feira (03) pesquisadores, gestores públicos e especialistas em um workshop para mostrar que restaurar essas áreas não é custo, é investimento. O guia “Recuperação de Pastagens no Cerrado: Guia de Boas Práticas e Políticas de Incentivo” mostra que R$ 21 bilhões aplicados na reabilitação de 15 milhões de hectares gerariam R$ 36 bilhões em produção agrícola e florestal, com superávit líquido de R$ 15 bilhões.
“Não é apenas agenda climática, é agenda de desenvolvimento”, afirmou William Wills, Diretor Técnico do CBC. “Redução de emissões, absorção de carbono, aumento de produtividade, geração de renda, segurança alimentar e desenvolvimento regional. A grande premissa por trás de tudo isso é transformar passivo em oportunidade.” Para Wills, os estados têm papel central nisso, pois são mais próximos do território e capazes de fazer chegar aos municípios as prioridades locais e os instrumentos de financiamento.
Vanuza Borges, secretária executiva do Consórcio Brasil Verde, reforçou a dimensão estratégica do tema. Para ela, o uso inteligente e sustentável do solo é o grande trunfo do Brasil para alcançar suas metas climáticas. “Transcende a agenda ambiental”, disse. “É uma estratégia combinada de mitigação, adaptação e desenvolvimento rural sustentável.” Para o CBV, enfrentar esse estoque de áreas degradadas é tratar eficiência de governança e fomento econômico, transformando passivos dos estados em ativos.
O workshop desta quinta-feira é o primeiro de uma série que o CBC vai promover nos próximos meses, com base em sete policy briefs que estão sendo produzidos pelo CBC sobre setores estratégicos para a descarbonização da economia brasileira. Confira o vídeo do workshop aqui:
https://www.youtube.com/watch?v=FL8xWyDcSdk.
O evento reuniu experiências com abordagens e escalas distintas. Artur Falcette, Secretário de Meio Ambiente, Desenvolvimento, Ciência, Tecnologia e Inovação do Mato Grosso do Sul, apresentou a estratégia do estado, centrada na intensificação da pecuária para liberar áreas degradadas e atrair novas cadeias produtivas. Eduarda Thurler, do WRI Brasil, mostrou o potencial econômico do reflorestamento com espécies nativas por meio do Projeto Verena. Renato Farias, do Instituto Centro de Vida, trouxe duas décadas de trabalho no norte do Mato Grosso mostrando como engajar o produtor no longo prazo.
Leila Harfuch, da Agroicone, trouxe uma visão social do problema, mostrando que o crédito é apenas parte da solução. O encontro teve participação também de Eduardo Tavares, Secretário Nacional de Fundos e Instrumentos Financeiros do Ministério do Desenvolvimento Regional, e de Giovani William Gianetti, do iGPP e da ESALQ/USP, que apresentou um mapeamento detalhado das áreas com potencial de recuperação no Brasil.
O caso do Mato Grosso do Sul
O Mato Grosso do Sul converteu mais de 5 milhões de hectares de pastagens degradadas nos últimos 14 anos, o que representa 25% da suas áreas de pastagem. O ponto de partida era um passivo herdado das décadas de 60 e 70, quando grandes áreas foram antropizadas com baixa tecnologia e pouca produtividade. Com o passar do tempo, as pastagens foram se degradando, perdendo potencial produtivo e se tornando fonte de emissão de gases de efeito estufa.
Para o secretário de Estado do Meio Ambiente, Desenvolvimento, Ciência, Tecnologia e Inovação, Artur Falcette, pastagem degradada é o uso do solo mais prejudicial que um território pode ter. “O desmatamento já aconteceu, o ambiente nativo já foi perdido e a área ainda não cumpre sua função econômica e social. Aquilo que não gera resultado não consegue se sustentar no longo prazo.”
Onde havia déficit de reserva legal, APP ou necessidade de gestão de recursos hídricos, o caminho foi a restauração. No restante, a estratégia foi outra: tornar a pecuária mais eficiente para liberar as áreas mais degradadas e atrair novas cadeias para ocupá-las.
Para tornar a pecuária mais eficiente, o estado criou o programa Novilho Precoce. O programa foi amadurecendo ao longo do tempo, começando com critérios mais simples de remuneração e evoluindo gradualmente até remunerar o produtor pela qualidade da carcaça e pela redução da idade de abate. Com ciclos que chegaram a 14, 16 meses, o pecuarista consegue mais giros no mesmo espaço. O MS é hoje líder nacional nessa métrica. A melhoria da qualidade da carcaça abre nichos e mercados diferentes, com acesso a compradores e preços que antes estavam fora do alcance. “Dou mais rentabilidade ao pecuarista e ele passa a ter capacidade de produzir mais usando menos área”, disse Falcette. “Isso libera as áreas mais degradadas primeiro.”
Mas não bastava liberar a área. O estado precisava ser pró-negócio, com clareza sobre quais áreas precisavam entrar no processo produtivo gerando ganhos ambientais, e com mecanismos capazes de orientar a decisão do produtor privado na direção da diretriz pública. O resultado foi uma diversificação da economia regional que o MS não tinha antes. Cinco culturas dominaram os 5 milhões de hectares convertidos: soja, milho, cana, eucalipto e, mais recentemente, laranja, cada uma trazendo novas empresas, cadeias de valor e frentes de negócio para o estado. A cana produz não só combustível mas também outros derivados que ampliam as possibilidades do setor. O eucalipto se consolidou como uma indústria no estado e mantém hoje 44% de reserva legal nos maciços florestais, mais que o dobro do mínimo exigido pelo Código Florestal.
O MS adota três programas de pagamento por serviços ambientais, fomenta sistemas integrados de produção e usa mecanismos de crédito como o FCO e fundos constitucionais. “Tudo isso vai se somando e forma um ambiente de negócios que parte da ciência, passa pelos mecanismos financeiros e chega com clareza na política pública”, disse Falcette. “Vem dando certo.”
O MS saiu de 20 para 15 milhões de hectares de pastagens em uma década sem perder produção. Nos próximos anos, o estado mira os 9 milhões de hectares que ainda apresentam alto grau de degradação, sendo pelo menos 4 milhões com alto potencial agrícola. O desafio da próxima fase é que o seguro agrícola avançou onde havia maior aptidão, mas ao entrar em áreas marginais os mecanismos financeiros precisam ser mais sofisticados. O descasamento entre o ciclo do crédito e os ciclos produtivos florestais é um dos nós a resolver, assim como a redução de pontos cegos regulatórios. Para Falcette, o seguro precisa deixar de ser apenas proteção e passar a funcionar como indutor ativo de conversão dessas áreas.
Árvores nativas como negócio
Eduarda Thurler, coordenadora de finanças e investimentos do WRI Brasil, apresentou o Projeto Verena, primeiro levantamento sobre o potencial de negócio do reflorestamento com espécies nativas dos ecossistemas brasileiros. O estudo analisou pelo menos 30 tipos de árvores nativas e comparou com nove culturas tradicionais, entre elas banana, cacau, café, pupunha, mandioca, pinus e eucalipto.
O principal achado foi que o reflorestamento com nativas e sistemas agroflorestais teve retorno médio de 16%, superior à média de 13% da agricultura e da silvicultura convencional. “A pastagem degradada não deveria ser o final da linha”, disse Thurler. “A restauração tem que deixar de ser vista como custo ambiental para gerar emprego, renda e novas oportunidades de negócio.”
O projeto resultou em uma ferramenta gratuita de investimento que permite calcular a viabilidade de projetos de reflorestamento ou sistemas agroflorestais, e deu origem a um programa de pesquisa e desenvolvimento em silvicultura de espécies nativas. Para Thurler, o desafio não é só financiar mas criar condições para que o valor seja reconhecido, capturado e reinvestido. Ela identificou o risco do crédito como o principal obstáculo: ele é tratado como técnico quando na verdade é risco de informação, pois faltam dados históricos de retorno e desempenho para que bancos e investidores consigam precificá-lo corretamente.
“O recurso não chega porque o crédito não consegue ter garantia, seja para recursos públicos ou privados, BNDES, Fundo Clima”, disse. O problema é que quando um produtor busca crédito para restaurar uma área, o banco exige um ativo como garantia, e a floresta em pé raramente é aceita para esse fim. Outro nó é o prazo: os produtos de crédito disponíveis têm ciclo incompatível com o tempo da floresta. A taxonomia verde lançada no ano passado e os títulos verdes, que já têm volume relevante no agro e em florestas, são avanços, mas o blended finance, que mistura capital público e privado para reduzir o risco, ainda tem muito espaço a explorar.
Presença no território
A experiência do Instituto Centro de Vida no norte do Mato Grosso também foi destaque no evento. Renato Farias, ex-diretor executivo do ICV e atual diretor da Trust Consultoria, trouxe a perspectiva de quem passou duas décadas construindo arranjos produtivos sustentáveis na região. Três projetos marcaram sua trajetória: o Novo Campo em 2005, que começou com grandes propriedades como prova de conceito; o Conec@agro em 2020, quando a pergunta passou a ser a da escala; e o projeto Mais Eficiente em 2026, focado em qualificação da produção.
A lógica que atravessa os três projetos é a de que uma produção mais qualificada gera menos pressão sobre a propriedade rural, e essa informação se difunde nos vizinhos. O ICV começou pelas grandes propriedades, fez a prova de conceito, depois passou a trabalhar com médios produtores e foi agregando outros parceiros no ecossistema, cooperativas de crédito, assistência técnica privada, arranjos que mostram ganho de margem e se disseminam. A partir de 2025, o olhar se ampliou para a redução de metano e emissões em geral. “Arranjos produtivos bem estabelecidos, coisas que não discutia antes, facilitaram muito nossa abordagem”, disse Farias.
Para ele, o que sustenta o engajamento do produtor é a presença técnica constante e a identificação de boas lideranças locais. “O ICV está naquele território desde 2000 e continua lá com projetos, atores e ação contínua”, disse. A linguagem com o produtor começa sempre pelo econômico, pelo aumento de produtividade e margem bruta, para depois alcançar as questões ambientais e sociais. Segundo ele, quando a conta fecha dentro da porteira, a pressão sobre a floresta diminui, a regularização ambiental vem e a abordagem fica mais colaborativa.
Onde estão as áreas degradadas e quanto valem
O Brasil tem entre 90 e 100 milhões de hectares em algum estágio de degradação, mas nem toda área tem potencial econômico ou ambiental para ser recuperada. O alerta veio de Giovani William Gianetti, pesquisador do iGPP e da ESALQ/USP, que apresentou um mapeamento detalhado das áreas com potencial de recuperação no Brasil.
Segundo ele, o potencial econômico e ambiental nem sempre se casam. O funil de elegibilidade que ele desenvolveu existe justamente para resolver isso, cruzando critérios climáticos, de solo, relevo e aptidão agrícola com critérios econômicos como logística e proximidade de indústrias de processamento. Aplicado ao Brasil, o número de áreas com potencial de recuperação cai para 58 milhões de hectares. Com o corte adicional para áreas sem desmatamento após 2008, o potencial cai pela metade: 30 milhões de hectares passíveis de recuperação em diversos sistemas.
Desses 30 milhões, 35% estão no Centro-Oeste, 30% no Sudeste e 20% no Norte. Cinco estados, Minas Gerais, Mato Grosso do Sul, Mato Grosso, Pará e Goiás, concentram 19 dos 30 milhões de hectares mapeados. Um dado chamou atenção: 5 milhões de hectares desse total estão em imóveis pequenos, com menos de 50 hectares de área de pastagem, exatamente o perfil que as linhas de crédito convencionais não conseguem alcançar. “É importante chegar nos pequenos”, disse Gianetti. Para viabilizar isso, ele apontou a necessidade de identificar zonas prioritárias, estruturar clusters produtivos e desenhar projetos de blended finance que conectem bancos regionais e cooperativas aos produtores de menor porte.
Aplicando um modelo de equilíbrio geral para projetar os cenários econômicos, o estudo estima que cada real investido em recuperação gera mais de dez reais na economia, considerando os efeitos circulares de aumento de renda e consumo em outros setores.
O crédito não chega onde mais precisa
A recuperação de áreas degradadas tem um problema que vai além do financiamento. Foi o que mostrou Leila Harfuch, da Agroicone, think tank voltado para o desenvolvimento sustentável do setor agropecuário. “O crédito é um instrumento central na transição para a pecuária regenerativa de baixo carbono, mas depende do contexto em que o produtor está inserido”, disse. Condições socioeconômicas, acesso à assistência técnica e regularização fundiária definem se o crédito chega ou não, e se funciona quando chega.
Para mapear esse contexto, a Agroicone desenvolveu o Índice de Desenvolvimento Rural para o CAR, o IDR-CAR, usando dados do Censo Demográfico de 2022. O índice avalia, imóvel por imóvel, renda, infraestrutura coletiva, educação e infraestrutura domiciliar, e cruza esses dados com a presença de pastagem degradada e o acesso a crédito. O resultado revela um ciclo difícil de quebrar: os produtores com piores indicadores socioeconômicos são exatamente os que têm menos histórico de crédito, menos uso de corretivo de pH do solo e menos acesso a assistência técnica, as condições de contorno que tornam a conversão de áreas degradadas possível.
Os números ilustram o problema. Aplicando filtros de inscrição no CAR, sobreposição com áreas restritas e desmatamento após 2008, a área potencial para recuperação cai de 107 milhões para 27,7 milhões de hectares, distribuídos em 1,02 milhão de imóveis. Desses, 72,7% não têm histórico de contratação de crédito, e esse grupo concentra 66,4% da área de pasto degradado. Apenas 4,1% dos imóveis, os produtores já inseridos em jornadas de sustentabilidade, respondem por 5,1% da área.
A concentração geográfica do problema também chama atenção. No Mato Grosso, 25% dos municípios concentram 50% da pastagem degradada dentro dos imóveis focalizados, o que abre espaço para políticas mais precisas. “Podemos concentrar esforços”, disse Harfuch.
No Pronaf, a distorção é clara: a maior parte do crédito vai para aquisição ou custeio de bovinos, não para melhorias na produção. O produtor menor, da agricultura familiar, está sendo marginalizado nessa transição, alimentando um ciclo de pobreza e degradação que piora tanto a renda quanto o estado ambiental das propriedades.
Para Harfuch, a saída passa por três frentes. Focalização exata, de 152 mil imóveis para 103 mil alvos focais, com ação guiada por dados socioeconômicos reais. Crédito condicionado, com o fim do financiamento da degradação e o crédito rural como motor exclusivo e exigente da transição. E transição justa, com ATER pública e infraestrutura focada nos 75 mil produtores invisíveis, não deixando a agricultura familiar para trás.
O papel do governo federal
O reconhecimento do tema pelo governo federal chegou em várias frentes. Bancos de desenvolvimento regionais, Banco da Amazônia, Banco do Nordeste, Banco do Brasil, e fundos de desenvolvimento passaram a enxergar a recuperação de áreas degradadas como oportunidade de política produtiva e de desenvolvimento regional, não apenas como pauta ambiental.
Eduardo Tavares, Secretário Nacional de Fundos e Instrumentos Financeiros do Ministério do Desenvolvimento Regional, reconheceu que o gargalo não é só agronômico mas financeiro. O custo de conversão é alto e o risco ainda é percebido como elevado. A legislação avançou no mercado de carbono, mas a escala ainda precisa crescer. “Os instrumentos de financiamento precisam buscar redução de risco e custo dessa transição”, disse Tavares. O argumento é que o produtor ganha em dois sentidos: aumento de produtividade e estoque de carbono como ativo adicional.
Segundo ele, há iniciativas em curso como concessões florestais para áreas degradadas, mas no âmbito do ministério o foco está em estruturar linhas dentro dos fundos constitucionais que prevejam financiamento dessa recuperação. O FNO rural verde no Norte, administrado pelo Banco da Amazônia; o FNE agropecuário de baixo carbono no Nordeste; e o FCO com linhas de sustentabilidade no Centro-Oeste. O BNDES entra com o Renova Agro de norte a sul, junto com o Plano ABC+.
Mas para Tavares o desafio vai além de tornar as atividades elegíveis ao crédito. “Não é só pensar no financiamento, mas em como o fluxo de carbono pode ser capturado pelo desenho do produto, bonificando as linhas ou reduzindo as taxas”, disse. O carbono gerado na recuperação pode entrar como garantia ou fonte de amortização, abrindo caminhos que ainda estão sendo construídos. O Banco do Brasil já aceita ativos gerados na recuperação para fazer a primeira compra. “Tem muita coisa interessante que a gente pode construir”, disse Tavares. “Estamos à disposição para aprofundar o debate e incorporar nas linhas que estão sendo construídas e estão em operação.”
O evento do CBC mostrou que não falta caminho nem evidência. O guia aponta um portfólio de soluções já validadas, do manejo adequado do gado e da adubação estratégica à regeneração natural de nativas, dos sistemas agroflorestais à silvicultura de espécies nativas. Para viabilizá-las, o CBC identifica três pilares: financiamento, com capital público desbloqueando o privado e novas receitas como mercado de carbono e pagamento por serviços ambientais; governança, com o estado como orquestrador de um conjunto amplo de instrumentos; e boas práticas com tecnologia e crédito chegando ao produtor. “O maior passivo do Cerrado é também o seu maior ativo”, resumiu Felipe Pinheiro.


